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"Quando eu estou cantando, eu defendo a minha existência", conheça a artista Maíra Garrido

Cantora, atriz, compositora, instrumentista, professora de canto, preparadora vocal, bacharel em Canto pela Unirio (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e técnica em Artes Cênicas pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras). Cada uma dessas profissões pode ser utilizada para descrever Maíra Garrido, que só podia ser geminiana, claro.


Além de investir em sua carreira solo, a artista também atua em coletivos, como o "Grupo Reflexos", vencedor do prêmio de "Melhor Banda" no "Festival Zimba" em janeiro de 2017. Nesse mesmo evento, Maíra recebeu o troféu de "Melhor Intérprete"; e "As Minas", em que teve oportunidade de compor, atuar e cantar, além de assinar a direção do espetáculo "Eu (quase) morri afogada várias vezes". Também assinou a direção musical e composição da peça “Menines”, que ficou em cartaz em 2019 no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Foto: Mariana Esberard

Maíra é ativista de diversas causas sociais, como a gordofobia e a questão LGBTQIA+. Em sua página no Instagram, ela trata o assunto com muita seriedade, mas sempre com um toque de humor! Vale muito a pena dar uma olhada naquele feed que a gente olha e grita: ARTISTA!


No final de 2020, Maíra lançou a música "Calma (Leia na Placa)", disponível no Spotify e Deezer. Conversamos com ela sobre o processo de criação da música. Confere aí e não deixe de ouvir todas as músicas da Maíra Garrido!


]Conta um pouquinho do seu processo criativo antes e durante a pandemia[

Meu processo criativo, tanto antes da pandemia, quanto durante a pandemia, se dá de forma muito emocional. Na realidade, eu comecei a compor por uma necessidade, por demanda. Mas, nessa época, eu não acreditava muito na minha capacidade de composição. Depois, quando eu comecei a perceber que a composição poderia ser uma ferramenta quase psicológica, de desafogar, ela começou a ser muito importante nos meus processos. Quando eu estava mal com qualquer coisa, logo ia compor sobre. Minhas composições começaram a ser cada vez mais frequentes. Eu sinto as coisas e preciso escrever sobre elas. Então, tem sido um momento bem diferente, bem único, das carreiras de todos os artistas, mas, em termos de processo de composição, acho que nada mudou. É sempre num dia que eu não estou conseguindo me expressar, e aí a composição vem meio que me salvar.


Eu diria que, durante a pandemia, meu processo criativo ficou um pouco bloqueado. Eu estou passando por um luto agora. Minha avó faleceu em janeiro deste ano e ela era a pessoa mais importante da minha família pra mim. Era a pessoa com quem eu tinha uma ligação extremamente forte, e a morte dela foi muito difícil pra eu digerir, ainda mais num momento que eu me vi longe de todos, das outras pessoas da minha família que não moram no Rio. Então eu vi esse processo criativo um pouco bloqueado, comecei a ter crises de ansiedade, essas coisas. Depois de um tempo, eu voltei a compor, e as minhas crises de ansiedade pararam. É como se a composição e esse meu processo criativo me salvassem um pouco desses momentos mais difíceis.


]Como você vê a situação dos artistas na pandemia?[

Acho que antes de pensar nos artistas, a gente tem que pensar no cenário do Brasil. Estamos passando por um período muito desafiador pro brasileiro no geral, por mais que alguns não percebam, porque a gente está desassistido em vários aspectos, principalmente na questão sanitária. Eu acho que isso se reflete em várias áreas, mas na cultura está se refletindo de uma forma mais contundente. Era uma área muito negligenciada, mesmo antes da pandemia e, com a pandemia, foi a primeira a fechar. Eu lembro que eu tinha um show na sexta-feira, quando foi decretada a quarentena aqui no Rio. E aí, depois, só entrou em voga mesmo na segunda seguinte. Mas, mesmo assim, o meu show de sexta foi cancelado. Assim como vários outros shows que eu já tinha marcado. Foi a primeira coisa a ser interrompida e vai ser a última a ser liberada. A gente está passando por um período bastante desafiador por conta disso. Nós não temos assistência nenhuma. Agora teve alguns editais de pandemia, mas eles não contemplam todos os artistas, então a situação desses profissionais é bem alarmante. Os artistas se viram reféns das plataformas de streaming, que, na verdade, são facilitadoras, mas, ao mesmo tempo, também não são o que gera a maior parte da renda do artista independente. Então, é realmente muito desafiador.


]Você é militante contra a gordofobia, certo? Você procura relacionar seu posicionamento à sua arte? Se sim, como?[

Eu sou militante contra a gordofobia e a LGBTQIA+ fobia. Sou feminista também. Eu me considero uma pessoa queer. Eu acho que minha arte não existiria sem estar atrelada a essas questões. Como eu falei antes, as minhas músicas, as minhas composições, elas vêm muito dos meus momentos de insatisfação ou de dor, ou quando extrapola a possibilidade racional pra mim. Qualquer tipo de preconceito extrapola a minha capacidade de razão. Eu sou uma pessoa que busca ter empatia com as pessoas e procuro lidar com as situações pela via do diálogo. Qualquer tipo de preconceito é uma coisa que mexe muito comigo no sentido de que eu realmente não compreendo o que leva uma pessoa a querer machucar outra pessoa, seja física ou psicologicamente, pelo que a pessoa é.


Dentro do meu ser, eu não consigo compreender isso. Seria inevitável eu trazer essas lutas pra minha música e pra minha arte em geral porque, quando eu estou cantando, eu defendo a minha existência. Quando eu estou no palco, estou cantando, compondo uma música, eu estou estabelecendo um trato com as pessoas de que eu sou aquilo que as pessoas estão vendo. Não existiria a minha arte se não fossem essas questões, eu ter orgulho de ser exatamente quem eu sou. Então, essa militância está presente em tudo que eu faço na vida, seja artístico ou não.

Foto: Mariana Esberard

]Nesse sentido, no atual cenário político, marcado pela intolerância, qual a importância da arte para a conscientização das pessoas?[

Tem um texto do Plínio Marcos sobre o ator ("O Ator", dá um Google!). Diz basicamente que sempre tem dentro das pessoas, do ser humano, algum lugar ali onde a pessoa ainda tem a possibilidade de acessar alguma forma de empatia. Ele defende, nesse texto, que o ator tem esse dom. Ele segue dizendo que não é o dramaturgo que tem esse dom, não é o iluminador que tem esse dom, não é o diretor que tem esse dom, mas o ator. Eu discordo do Plínio, eu acho que qualquer forma de arte tem esse dom, e o artista que entende que tem como missão causar qualquer tipo de impacto social, o artista que compreende que tem essa possibilidade, mesmo que seja uma pessoa, mesmo que sejam milhões, ele está cumprindo seu papel em sociedade. Essa é minha visão.


Eu tenho muita fé, de verdade, que quando um artista coloca sua arte no mundo, ele vai acessar esse lugar macio, onde existem ecos de histórias de amor que a pessoa já viveu em algum momento da vida. E mesmo que seja de um em um, devagarinho, eu tenho essa fé, esperança, crença que a gente vai conseguir tocar as pessoas, transformar o mundo aos pouquinhos, como uma pequena onda que vai se reverberando e refletindo nas outras pessoas. Vamos mudando, dessa forma, o planeta. Eu sou uma pessoa muito otimista em relação à possibilidade de as pessoas serem gigantes, de alcançar o maior potencial possível. Acho que o artista tem essa missão, de abrir os olhos das pessoas e fazer com que elas ajam e saiam da inércia. Acho que isso é muito importante.


]Quais seus projetos para o futuro?[

Os meus projetos pro futuro, neste momento, envolvem a gravação do EP, com músicas minhas, voltado ao universo LBT. Provavelmente esse EP será acompanhado de clipes, que já estão sendo desenvolvidos com uma equipe majoritariamente feminina LBT, mas algumas mulheres hétero também. Acho que 2021 aguarda uma nova Maíra, mais consciente do seu papel no mundo e pronta pra atacar, no melhor dos sentidos.


]Qual mensagem você quis passar com "Calma (Leia na Placa)"?[

Essa música veio num momento de total desgaste. Não era nem só com a situação da pandemia, mas óbvio que envolve a pandemia. Eu a compus em meados de agosto e já estava num ponto de saturação muito grande em relação ao momento que a gente está vivendo, mas também tem a ver com várias outras coisas e, como eu falei, com algumas inconformidades. Eu não consigo me conformar com algumas coisas que eu vejo acontecendo no mundo. A gente está vivendo um momento muito específico de ver as coisas acontecendo pela janela sem poder fazer nada nem por nós mesmos, nem pelos outros. Se acontece alguma coisa no mundo, como o caso Mari Ferrer, dá vontade de sair, ir pra rua, gritar e falar "caramba, isso é muito injusto" e, ao mesmo tempo, se eu for pra rua, eu vou aglomerar e, se eu aglomerar, eu posso me contaminar e contaminar as pessoas que moram no meu prédio.


É um momento muito incerto. Então, essa música veio com a angústia. Ao mesmo tempo que eu estou me sentindo muito cansada, a letra até começa falando "eu tô me sentindo cansada, eu não aguento mais", e o refrão é "calma na alma não me serve mais". É isso, esse "vamos ser produtivos na quarentena" e "vamos ficar calmos e vai passar", isso não me serve mais. Tem muita coisa errada acontecendo, muita coisa injusta acontecendo, e a gente está vendo tudo isso passar pela janela. É muito angustiante, então foi mais uma necessidade de botar pra fora essa angústia, esse desejo de poder fazer algo a mais e a esperança de que a gente passe por esse momento com o mínimo de dignidade.


***


Depois de ter lido essa entrevista com a Maíra e ouvir a música dela, que tal conferir as tendências para 2021 do relatório Spotify? Não perca tempo e descubra como melhorar as estratégias de marketing e divulgação via streaming de áudio!


E não deixe de conferir também nosso podcast Profissões da Economia Criativa, disponível no Spotify, Deezer e em todas as melhores plataformas. Você também pode conferir aqui mesmo, no site do Profissões. Não vai perder, né?

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